Querida Sofia,
Adoro observar as pessoas. Sozinhas ou acompanhadas. Tristes ou alegres. Os sorrisos que vão dando enquanto escrevem freneticamente nos seus smartphones. Uma das coisas que mais gosto de observar é a interacção entre casais. A maneira como se comportam quando estão sozinhos e como lidam um com o outro quando estão juntos. Incrível como mudam. Tenho uma amiga, por exemplo, que é naturalmente alegre, sempre a rir, a mostrar os dentes nas suas gargalhadas. Quando vê o namorado - será por estarem juntos há pouco tempo? - fica vermelha, não abre tanto a boca para rir, torna-se mais séria. Continua sorridente, mas não é mais aberta e demonstra menos espontaneidade. Acho que nunca lhe disse. Acho que ela própria nem sequer se deve dar conta. São comportamentos nossos que apenas são observáveis pelos outros.
Outro dia, estava parada a espera do sinal autorizando-me a atravessar a rua quando vejo um casal. Ela instintivamente baixava a sua postura para falar com ele. Não sei bem como explicar isto, mas baixava a cabeça, fazia olhos mais tristes como se estivesse pedindo algo, numa posição quase indefesa, mais vulnerável . E vejo muitas mulheres fazerem a mesma coisa, e de novo, tenho a certeza que não se dão conta. Ficam ali naquela postura, tentando valorizar o homem, que ele seja alto, mais forte, que as proteja, os lábios virados para cima como sempre pedindo um beijo e o corpo sempre a pedir momentos de afecto e um abraço enquanto esperam o bonequinho verde para atravessar o lo que sea.
Não precisam que ele passe a noite com elas, e eles bem que poderiam ter a sua "boys hangout night out", mas na mesma, vão fazer um beicinho para eles ficarem, para serem territoriais, para mostrarem que têm algum poder, para criar o sistema da dependência do afecto. Que seja para que fique em casa, connosco (bored ou não), que seja para nos dar protecção física e espaço para serem o que deles esperamos: homens.
God, acho tudo isto tão parvo, tão desnecessário e ao mesmo tempo, tão verdadeiro. No fundo, não somos seres dependentes de outro (bom, EU pelo menos não sou, vejo muita gente dependente por toda a parte), mas quando formamos um casal, aceitamos ser mais frágeis, aceitamos que alguém nos proteja, somos que nem bebés que abrimos os braços à espera de colo constante quando vemos um adulto passar.
A verdade é que nem todo o mundo tem acesso a isso. Há pessoas que não são beijadas todos os dias. Não têm ninguém que lhes envie o SMS dizendo "boa noite, meu amor". Não recebem flores, não levam com nenhum "tenho saudades tuas". Não planeiam finais de semana dentro de um carro a passear nem fazem planos alguns com ninguém. Não têm um braço ao qual se agarrar enquanto vêm um filme de terror. Não têm aquele primeiro abraço da manhã assim que acordam nem nenhum "good morning, Guapa". E são pessoas que continuam vivas. Sozinhas. Independentes por escolha ou por força das coisas. O vento passa e elas abalam menos. E são elas que estão disponíveis para quando o vento abala os moinhos menos fortes e que sempre esperaram que o vento ou a corrente os fizesse andar.


6 Resposta(s) a esta Carta:
adorei o último parágrafo. tens toda a razão.
És bem observadora, porque agora que penso nisso penso que essa postura é visível muitas vezes sim. É quase biológica esta necessidade de protecção e aprovação, somos seres sociais não é?
A mim faz-me falta as coisas que se fazem a dois, há dias em que me fazem muita falta mesmo, mas com o tempo tenho vindo a apreciar o que posso fazer sózinha.
... eu adorei TODO o texto.
Verdade verdadinha Elite
been ther, done that :(
Talvez seja a primeira vez que comente o blog, apesar de o acompanhar há algum tempo.
Hoje dei por mim a pensar exactamente o mesmo. Neste momento encontro-me sozinha (em modo não-casal), mas bolas sinto-me bem. Não aguardo ansiosamente por mensagens quando acordo de manha, nem tenho a quem enviar antes de ir dormir.
Não teria dito melhor Sofia. Beijinhos*
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