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Querida Sofia,
Quando tive a minha primeira longa experiência numa empresa francesa, em 2006, onde estagiei durante 11 meses, tive um pequeno choque ao chegar. Um choque rápido, do qual te curam na primeira hora de trabalho: aqui ninguém é "doutor" e (quase) ninguém se trata por "vous".
Explico: cresci em países lusófonos nos quais todo o mundo que é mais velho e está numa empresa é doutor (ou é tio... certo?!). Mesmo que nem à universidade tenha ido, mesmo sem doutoramento, pouco importava, era “Senhora Doutora” para aqui e “Senhor Doutor”para acolá.
Quando entrei no banco (2006), não fui infeliz ao ponto de chamar alguém de senhor doutor, mas cumprimentei usando o “vous”. Nunca usei o “você” em Português, acho que nunca na vida usarei (não sei porquê, acho que é frescura), mas quando quero mostrar respeito ou que uma pessoa não é da minha txurma, falo com ela na terceira pessoa. Explico bis: digo “a tia gostaria de beber algo? O senhor poderia dar-me a informação X?”, uma ginástica que uso há 24 anos, que tem funcionado para mim, sem nunca usar o “tu” nem o “você” e acho que não é por isso que seja malcriada. Acho engraçado, sobretudo na internet, quando leio um “não nos conhecemos de lado nenhum, trate-me por “você”"... ha ha haaaaaaaaaaaaa? Parto do princípio que NA internet, somos todos iguais. Bref.
A regra diz que no primeiro encontro, diz-se “monsieur/madame/vous”, e, por cortesia, eles respondem “vous n’avez pas besoin de me vouvoyer, nous pouvons nous tutoyer”. Saímos da era do "vous", que chamamos de "vouvoiement" para entrarmos na era do “tu”, que chamamos de "tutoiement".
Confesso que foi difícil para mim no princípio - passei uma vida a falar com as pessoas da maneira que expliquei acima e para mim, dizer "tu", era uma tremenda falta de respeito - e hoje, finalmente, acho tudo isto normal e vou ter dificuldades se voltar ao mundo das “senhoras doutoras sem diploma para tal, mas senhora doutora na mesma”. Isso para não falar quando tratamos com os anglo-saxónicos, e o “you/you”, que é ainda mais fácil que esta etapa do “vouvoyer” e do “tutoyer”, etapa que nem sempre é fácil atingir, mas com jeitinho, aprendemos as regras.
Acredito também que esta possa ser a "norma" em empresas grandes, multinacionais, "prà" frentex. Não conheço realidade nos hospitais, laboratórios e empresas mais pequenas... E digo mais: uma sociedade na qual existam os verbos para designar o facto de chamar de "tu" e "vous" às pessoas já determina que não somos todos nascidos da mesma farinha, então é preciso ter cuidado com as regras implícitas desta cultura complexa e apaixonante.
Lembro-me que em 2009, já rodada do banco por lá estar há anos, chamava o presidente do banco de “tu”. O director dos recursos humanos era “tu”. Ao director da comunicação, dizia “tu”. Todo o mundo “TU”. As únicas pessoas a quem se diz “vous” numa empresa são os empregados de limpeza e os agentes de segurança. Digo sempre, com um sorriso: “Bonjour! Vous allez bien?”, porque nunca tivemos aquela cerimónia do "vous/tu". E sem cerimónia explícita, não avançamos até lá. Comme quoi, são os que merecem toda a deferência e o meu “vouvoiement” porque é preciso ter pachorra, por exemplo, de esvaziar o meu lixo todas as manhãs.


Elite, como você fala com seus amigos lusófonos sem usar você? Você só usa 'tu'?
ResponderExcluirPost bem interessante.
Yup, "tu" "tu" "tu" ;)
ResponderExcluirComo gostei deste post!
ResponderExcluirAchei o tópico muito interessante! Mas realmente parece me confuso tratar alguém por tu, sabendo que essa pessoa é praticamente um desconhecido. Eu só trato por tu crianças/jovens, os meus amigos e a minha família XD. Era bem mais fácil ser inglês ou brasileiro. . .
ResponderExcluirNa Espanha é igual. E olha que mesmo a te espetarem uma adaga pelas costas, é na base do "toma para ti a tua adaga, chica e mais nada"! :) Bjos.
ResponderExcluirCurioso que ainda ontem ia escrever sobre isto!
ResponderExcluirEm português odeio o você. Acho feio, horroroso. Só mesmo com o sotaque brasileiro em que o você é o tu de Portugal. Para mim as pessoas são "a senhora" "o senhor"...quero falar consigo, como já lhe disse, etc. Nunca digo você. Na escola arrepiava-me com "mas você disse"..jamais! para mim seria "a professra disse".
Anyway, na empresa onde trabalho trato toda a gente por tu excepto o director, que trato pelo nome próprio, e a equipa da limpeza que trato por "dona+nome". Às vezes torna-se estranho constatar que pessoas que estão em postos acima do meu tratam os seus pares por "você" (lá está..) mas não quero saber. Tu-tu-tu. Prático e rápido. Nunca ninguém me fez cara feia.
Noutras empresas onde já estive dispensavam o dr. e eng. mas levavam sempre com o sr. atrás do nome. Menos mau que o doutor.
beijo
"we think alike" ;D
ResponderExcluirEm laboratórios:
ResponderExcluirEm Paris, mal o meu co-orientador deu conta que eu o estava a tratar por "vous", disse que ali toda a gente se tratava por "tu", e que eram todos iguais. Eu disse que provavelmente ia ter alguma dificuldade em tratá-los por "tu", portanto continuei com o "vous" para os professores e colegas mais velhos, e deixei de lado o "professeur" ou "docteur" (ali há doutoramentos), e para me referir a eles usava o nome próprio.
Cá, ninguém me disse nada, mas até agora, parece-me que é igual, todos se tratam por tu, e só para o chefe do laboratório é que alguns usam "professor", apesar de eu continuar a usar a 3ª pessoa pra todos os chefes/colegas mais velhos.
Depois deste hábito, lembro-me que fora de laboratórios talvez as pessoas achem que eu sou horrivelmente mal educada por não tratar licenciados por "doutor"; tenho andado a pensar nisso ultimamente, e não sei o que faça. Ah well.
E mais uma a quem o você em Português de Portugal não cai nada bem.
Obrigada por esta explicação: ainda melhor por conheceres os dois / três lados da moeda!!! (pt + fr + real doctors)
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